Resolvendo problemas complexos no setor público

por Bruno Rizardi, co-fundador da Catálise Social

Este artigo foi originalmente publicado na Apolitical.’

A complexidade é uma parte inerente do trabalho no setor público, ainda que essa palavra seja usada para se referir a um sentimento de sobrecarga ou a uma falta de clareza e foco. Isso acontece porque nós não estamos equipados e preparados para lidar com a complexidade — a maior parte das nossas ferramentas são adequadas para trabalhar com certeza e linearidade, apesar dessas duas coisas serem uma raridade quando se trata de problemas públicos.

O que é complexidade?

Eu defino complexidade como o comportamento de um sistema que há múltiplas interações entre as suas partes. Quando trabalhamos com complexidade, encontramos muitos comportamentos não-lineares — nós podemos mudar algo no sistema e não perceber o impacto, porque é indireto ou demora a acontecer. Outra característica da complexidade é a emergência, quando o todo é maior que a soma das partes — o que significa que não se consegue explicar o sistema apenas observando suas partes.

Ao trabalhar com políticas nacionais de educação, a construção de um sistema de contratação para todos os órgãos públicos brasileiros e até ao criar programas de empreendedorismo para pessoas de baixa-renda, eu lidei com problemas complexos dentro e fora do governo.

Na minha experiência, problemas públicos são, muitas vezes, problemas complexos, ou o que também é conhecido como wicked problems. Esses problemas são caracterizados por serem únicos, ambíguos, com múltiplas causas, limites pouco claros e por se conectarem uns aos outros. Se você trabalha com qualquer tipo de problema social, as chances são de que você está lidando com wicked problems. Resolvê-los requer um conjunto específico de ferramentas, mas antes, você precisar ajustar os modelos mentais.

Pensando em sistemas

Antes de você colocar a mão-na-massa para abordar um problema complexo, você precisa do modelo mental correto. Pensar em complexidade é pensar sistemicamente — você precisa perceber como os atores-chave interagem no sistema, se sentir confortável trabalhando com informações incompletas e ambíguas e buscar relações de causalidade e de correlação que, muitas vezes, só podem ser observadas por meio de pesquisa qualitativa. Ter um modelo mental de designer pode te ajudar a navegar essa complexidade.

O design busca entender os desejos e necessidades das pessoas e os transforma em soluções. Então, designers desenvolveram um conjunto de competências que os ajudam a trabalhar em meio à complexidade e construir algo valioso.

Começando pelo começo

Não ter certeza sobre o problema é, surpreendentemente, um ótimo começo.

Quando você fixa sua mente muito cedo sobre o que o problema é, as chances são de que você também já saiba o que vai fazer sobre ele. Para escapar dessa armadilha, seja curioso: tente explorar o problema, questionar suposições, buscar por opiniões de especialistas e entender como o problema afeta as pessoas.

Problemas complexos podem ser avaliados ao aplicar o modelo do iceberg: a parte visível do iceberg, a ponta, representa eventos: situações observáveis que geram reações. Esses eventos são sintomas, mas algumas vezes podem ser confundidos como o próprio problema. Por exemplo, os sintomas da mudança climática incluem secas e grandes tempestades e incêndios florestais, que podem ampliar o próprio problema, mas a causa são as emissões de gás carbônico produzidas pela humanidade. Então, existem os padrões e tendências, que representam eventos recorrentes ou aumentos e diminuições em certas situações sobre o tempo. Ainda seguindo o exemplo das mudanças climáticas, isso poderia ser o aumento constante dos níveis dos oceanos. Abaixo disso, há o sistema — a estrutura causas que dá suporte a esses eventos.

Essa estrutura seriam as fábricas que emitem CO2, mas também as decisões de políticos, consumidores e negócios que criam a demanda para essas fábricas operarem. Para um impacto real, devemos intervir nesse nível estrutural, criando novas relações ou mudando as existentes.

The Iceberg Model. (Source: Ecochallenge)

Por fim, existem os modelos mentais — são as crenças e valores que mantém o sistema no lugar. Nesse sistema, um exemplo seria o paradigma do crescimento econômico, que alguns ativistas da mudança climática veem como um impedimento para a mudança. Mudar os modelos mentais pode ser muito difícil e gerar consequências inesperadas, mas, em alguns casos, mudanças reais só podem ser alcançadas ao intervir aqui.

Outro exemplo poderiam ser jovens que evadem o ensino médio, que é o evento observável. O padrão que pode ser observado é o aumento da evasão no ensino médio. Então, há o sistema: jovens de baixa-renda ajudam suas famílias ao conseguir empregos quando têm idade suficiente, e assim não têm tempo para a escola. Abaixo disso, há a crença de alguns que o retorno financeiro imediato é mais importante que a conclusão do ensino básico.

Foco no problema

Problemas complexos mudam com o tempo e com as intervenções. Então, quando você se apaixona pela solução, corre o risco de perder de vista o problema. Então você pode estar resolvendo um problema que já mudou tanto que a sua solução é obsoleta. Esteja atento ao seu problema e continue pesquisando-o e ajustando a solução promovendo incrementos iterativos para o projeto. Em outras palavras, entenda que o jeito que você enquadrou o problema não é o único jeito de percebê-lo, e não tenha medo de voltar se você encontrar novas perspectivas ou um jeito melhor de enquadrá-lo.

Trabalhar com complexidade pode parecer difícil, exaustivo ou até mesmo como uma perda de tempo. Mas, é realmente uma maneira de como você o enquadra, então você pode resolver a parte mais estratégica e impactante do problema. Esse processo é de aprendizagem contínua — sempre se lembre que a experimentação é uma parte importante para a resolução de problemas complexos.

Uma startup de design participativo que reconecta pessoas e governos para catalisar o impacto social usando tecnologia e colaboração.

Uma startup de design participativo que reconecta pessoas e governos para catalisar o impacto social usando tecnologia e colaboração.